28/08/2008- 09:46
- O setor privado toma a frente.
Fonte:
Portal Exame
A estabilidade da moeda e o bom momento da economia estão levando as
empresas a intensificar os investimentos em infra-estrutura
Dentro de alguns dias, trens da América Latina Logística (ALL),
que fazem a ligação entre o interior de São Paulo e os
estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, começarão a transportar
uma mercadoria cuja produção se encontra em franco crescimento
em toda a região: o etanol. Trens, que partem de cidades como as paulistas
Araraquara e Bauru e a mato-grossense Alto Taquari, seguirão carregados
do combustível rumo a Paulínia, perto de Campinas, onde farão
a entrega na Refinaria do Planalto, base de distribuição para
os postos.
Para a ALL, trata-se de uma forma de aproveitar melhor seu equipamento —
até agora, os vagões-tanque, que levam óleo diesel para
o interior, voltam vazios. Para seus clientes, entre eles os grupos Copersucar,
Cosan, CrystalSev e Usinas Guarani, será a criação de
um novo — e mais econômico — canal de escoamento, hoje todo
feito por caminhões. A expectativa é que as ferrovias movimentem
2 bilhões de litros de álcool, no próximo ano.
O aspecto mais interessante do investimento é o fato de ser totalmente
privado. Os 100 milhões de reais necessários para novos vagões,
instalação de centros coletores e estrutura de descarga serão
divididos entre a ALL e seus clientes, o que inclui, além das usinas,
distribuidoras como Shell, BR e Repsol. “É o que chamamos de
‘ganha-ganha’, no qual para cada real que colocamos, os clientes
colocam mais 1”, afirma Bernardo Hees, presidente da ALL. “E assim
eles ajudam na nossa expansão.”
Exemplos como este, indicam uma tendência que começa, afinal,
a ganhar corpo: a do setor privado brasileiro tomando a frente na criação
de saídas para os nós logísticos do país e investindo
mais intensamente em infra-estrutura. “Hoje, existe um ânimo empresarial
muito positivo para investimentos desse tipo”, diz o economista Cláudio
Frischtak, sócio da consultoria Inter B e autor de diversos estudos
sobre o tema.
A continuidade da onda depende da manutenção de condições
propícias que foram se moldando ao longo de anos. A primeira é
a estabilidade da moeda, com inflação domada e taxa de juro
de longo prazo mais baixa. Outra mais recente é a retomada do crescimento.
E a terceira — esta localizada em algumas áreas, mas ainda ausente
em outras — é a existência de um ambiente regulatório
firme.
Nova
fase
É visível que os setores em que o investimento privado começa
a deslanchar são justamente aqueles que já contam com regras
mais claras e estáveis. É o caso das ferrovias, privatizadas
há pouco mais de dez anos. Nesse período, as concessionárias
tiveram de investir bilhões de reais para recuperar o equipamento sucateado,
que herdaram das antigas companhias estatais. Foram bem-sucedidas: duplicaram
a quantidade transportada de minérios e quase triplicaram o volume
de produtos agrícolas, ao mesmo tempo que, reduziram o número
de acidentes a um quinto.
Agora, o setor entra numa fase de ampliação. “A expansão
da malha ferroviária vai se acelerar nos próximos 15 anos”,
diz Manoel Reis, coordenador do Centro de Excelência em Logística
da Fundação Getulio Vargas de São Paulo. No cenário
mais otimista, o Brasil pode ganhar 20 000 quilômetros — a malha
atual é de 29 000 — de novas linhas até 2025, com investimento
superior a 50 bilhões de reais.
A ALL já se move para construir parte disso. No momento, a empresa
negocia a formação de um consórcio com a construtora
Constran e dois fundos de investimento em infra-estrutura para fazer um prolongamento
de 250 quilômetros da Ferronorte, de Alto Araguaia até Rondonópolis,
região produtora de grãos em Mato Grosso. O projeto é
estimado em 710 milhões de reais. “O grupo de investidores de
longo prazo vai bancar a construção da linha, nós iremos
operar e eles receberão por tonelada transportada durante 25 anos”,
diz Hees. “É uma equação totalmente privada.”
O modelo, apelidado de parceria “privada-privada”, em alusão
às PPPs, parcerias entre os setores público e privado, que não
vingaram ainda no Brasil, poderá ser repetido para concretizar outros
projetos.
É
preciso fazer mais
As parcerias se mostram mais viáveis também, porque hoje há
capital privado em busca de oportunidades de financiar a construção
da infra-estrutura — e lucrar com ela. É uma situação
bem diferente da que prevalecia até bem pouco tempo atrás. “Há
quatro anos, quando decidimos partir para a construção de nosso
porto, não encontramos um cristo que nos emprestasse”, diz Carlo
Botarelli, presidente da Triunfo Participações e Investimentos,
dona do terminal de Navegantes, no litoral catarinense, e concessionária
de três rodovias, em cinco estados. “Hoje, os bancos nos procuram
para oferecer dinheiro.” O BNDES, agora empenhado em estimular o setor,
prevê 178 bilhões de reais para a infra-estrutura. Há
também agentes privados disputando os melhores projetos.
Constituído há dois anos, o Fundo Infra-Brasil, do Banco Real,
conta com 940 milhões de reais para financiar o capital de empresas
de infra-estrutura ou participar delas. Do total, 43% já foram desembolsados,
a maior parte em projetos de energia renovável. “Há muitas
oportunidades de investimento. Queremos formar um novo fundo no ano que vem”,
diz Geoffrey Cleaver, gestor do Fundo Brasil-Infra.
O capital, porém, só irá para as áreas em que
as regras são consideradas confiáveis. No setor de portos, por
exemplo, há uma ameaça de mudança regulatória
que, dependendo do que for decidido, pode travar os investimentos.
A área de aeroportos, palco de enormes deficiências, nem sequer
foi aberta para o investimento privado. Mas, com o crescimento da demanda
e a falta de capacidade do governo para atendê-la, o cenário
pode mudar, a exemplo do que ocorreu no setor de energia — que de patinho
feio no passado virou uma estrela. “O marco regulatório ficou
mais transparente e agora está se consolidando”, diz Wilson Ferreira
Júnior, presidente da CPFL, uma das maiores geradoras e distribuidoras
de energia do país, que anunciou investimentos de 5 bilhões
de reais até 2012. A maior parte será destinada à conclusão
de Foz de Chapecó, a sexta usina construída pela CPFL desde
2002. “Só o crescimento da população gera um acréscimo
de 250 000 consumidores por ano, na nossa área de atuação”,
diz Ferreira.
O alento dos investidores — e soluções do Governo nas
áreas ainda travadas — será fundamental para que o Brasil
aumente o investimento em infra-estrutura. Desde o início da década,
o país patina na faixa de 2% do PIB investidos por ano. Países
como China, Índia e Chile investem o triplo. O Governo terá
de fazer mais, e o setor privado também. A julgar pelos movimentos
recentes, pelo menos as empresas privadas começam a fazer a sua parte.
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